Njila ya Kalunga: uma travessia entre história, fé e identidade no Kwanza

Destaques:

  • Tese de doutorado abre caminhos para a produção de mais estudos sobre a teologia africana a volta da implantação do metodismo em Angola.
  • Ao colocar a Rainha Njinga Mbandi em diálogo com figuras como Wesley e Taylor, o autor rompe categoricamente com narrativas eurocêntricas, devolvendo o protagonismo aos africanos na construção do pensamento e da reflexão teológica.

O Bispo residente Gaspar João Domingos, da Conferência Anual do Oeste de Angola, alcançou um feito histórico que transcende o mérito académico individual. Na defesa pública da sua tese de doutoramento em Estudos de Religião e Teologia, realizada na Universidade Metodista de Angola (UMA) em Luanda no dia 30 de setembro de 2025, o líder eclesiástico recebeu a classificação máxima de “Excelente”. Com este título, o Bispo Domingos torna-se o quarto doutor formado pela prestigiada instituição angolana.

A investigação, orientada pelo Prof. Dr. Helmut Renders, intitula-se “Njila ya Kalunga: O Mundo Atlântico, Njinga, Wesley e Taylor e a Formação do Kwanza Metodista”. Este título, carregado de simbolismo e profundidade histórica, não é apenas um marco pessoal, mas um divisor de águas na teologia africana contemporânea.

A Profundidade da Pesquisa: um Roteiro de três narrativas

O trabalho de investigação do agora Dr. Gaspar João Domingos está estruturado em três grandes narrativas e representa uma audaciosa travessia entre História, Fé e Identidade no Kwanza. A tese propõe uma leitura angolana da fé, indo além da simples narração da chegada do metodismo ao país.

A pesquisa dedica-se a examinar o desenvolvimento da narrativa metodista em Angola. Para tal, o Dr. Domingos mergulhou no entrelaçamento histórico e simbólico entre religião, cultura e o fenómeno da escravatura no corredor do Kwanza. Esta análise foi desenvolvida à luz de conceitos fundamentais e academicamente robustos, como o Mundo Atlântico negro e a Grande Kalunga. A sua pesquisa reconstrói um complexo enredo que abrange séculos e oceanos, articulando de forma magistral a experiência atlântica da escravatura, a resistência africana e o florescimento singular do metodismo em Angola.

"Njila ya Kalunga": uma metáfora de resistência e espiritualidade

O foco central para a tese é o conceito “Njila ya Kalunga”, que de certa forma demostra alguma ambiguidade, como a espinha dorsal metafórica do estudo. Este termo possui uma dualidade rica, podendo ser traduzido como "Caminho do mar” ou "Caminho da morte". O termo sugere uma profunda e inseparável conexão entre a fé, a geografia e a história traumática da escravatura.

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O conceito serve de metáfora abrangente para as travessias históricas, culturais e espirituais que moldaram a região do Kwanza. A investigação utiliza a metáfora da Grande Kalunga – entendida como fronteira, travessia e espiritualidade – para demonstrar como o cristianismo conseguiu enraizar-se profundamente no contexto bantu, resultando num metodismo genuinamente próprio.

O resultado dessa interação complexa é o que o autor denomina “Kwanza Metodista”. De acordo com o Dr. Domingos, esta não é uma mera extensão do esforço missionário estrangeiro, mas uma identidade eclesial autêntica que nasceu da intrincada interação entre a memória atlântica, a fé cristã e as práticas de resistência africanas. A tese evidencia que o metodismo em Angola é um produto de sínteses locais, inequivocamente marcadas pela resistência cultural, luta espiritual e mobilização comunitária.

Figuras-chave: o diálogo entre continentes e eras

O autor utiliza três figuras históricas de peso para traçar o percurso da igreja na região do Kwanza. No quadro do estudo, essas referências simbólicas emergem numa poderosa articulação histórica:

  1. Rainha Njinga Mbandi: Ela é invocada como a expressão maior da luta, diplomacia e resistência africana. Ao inseri-la no diálogo teológico, o autor constrói uma ponte vital entre o cristianismo africano pré-colonial e a fé que se seguiu.
  2. John Wesley: O fundador do Metodismo é o símbolo da renovação espiritual, representando o tronco da tradição eclesiástica que se enraizou em solo angolano.
  3. William Taylor: O pioneiro metodista em Angola, cujo legado foi examinado à luz das dinâmicas locais, mostrando como a missão se cruzou com a realidade cultural angolana.

Ao colocar a Rainha Njinga Mbandi em diálogo com figuras como Wesley e Taylor, o autor rompe categoricamente com narrativas eurocêntricas, devolvendo o protagonismo aos africanos na construção do pensamento e da reflexão teológica. O uso do termo tradicional "Njila ya Kalunga" simboliza uma hermenêutica angolana da fé, um encontro singular e poderoso entre a cosmologia bantu e a tradição metodista.

Reconhecimento e validação: um marco na teologia africana em Angola

A defesa pública, que decorreu no auditório da UMA, foi assistida por uma mesa de jurados de alto prestígio. Presidido pelo Magnífico Reitor da UMA, Prof. Dr. Tiago Caungo Mutombo, o júri contou com a participação de figuras académicas de peso: Prof. Dr. Patrício Batsikana (1.º arguente), Prof.ª Dr.ª Elvira Cazombo (2.ª arguente), e Prof.ª Dr.ª Ana Figueiroa (3.ª arguente), com o Prof. Dr. Mateus Francisco a secretariar a mesa. A sua aprovação unânime e com nota máxima atesta a qualidade e a relevância científica do trabalho.

Revma. Bispo Dr. Gaspar João Domingos momentos após a sua dissertação agradecendo os presentes no dia da defesa da sua tese na Universidade Metodista em Luanda.
Revma. Bispo Dr. Gaspar João Domingos momentos após a sua dissertação agradecendo os presentes no dia da defesa da sua tese na Universidade Metodista em Luanda.

O grau de doutoramento do Bispo Gaspar João Domingos não é apenas uma conquista académica, mas um marco significativo na teologia africana contemporânea. A conquista simboliza a validação de uma epistemologia africana da religião. O título, mais do que um reconhecimento do saber individual do bispo, tem a relevância de resgatar memórias e reafirmar o papel essencial da fé como um elemento de libertação, identidade e continuidade cultural no espaço angolano.

A defesa com distinção numa pesquisa de cerca de 400 páginas, sublinha o papel reforçado da Igreja Metodista Unida na academia angolana, e atesta a maturidade da teologia africana e a crescente valorização do diálogo entre fé, história e libertação. A pesquisa inovadora do Dr. Gaspar Domingos garante que a voz e a experiência africana ocupem o centro do pensamento teológico global.

Para a Revda. Elvira Cazombo, uma das arguentes da defesa a dissertação, esta é uma contribuição valiosa. “Este trabalho, quando for publicado, poderá ser um guia e contributo para a história de Angola e da Igreja”, disse Elvira.

“A partir desta tese muitos comentários e inquietações poderão ser despertados pois nele é apresentado uma visão política e económica, porque a principal preocupação de Taylor era estancar o comércio de escravos”, concluiu Elvira.

*Da Cruz é comunicador da Conferência Anual do Oeste de Angola

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