Benguela em crise: Metodistas Unidos respondem com solidariedade

Oficial do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros de Angola resgatando uma criança durante as cheias no Rio Cavaco em Benguela. Mais de 1.600 pessoas foram resgatadas com o apoio da Força Aérea, Marinha de Guerra e dos Bombeiros. A criança resgatada recebeu assistência médica no Hospital Geral de Benguela. Foto cortesia da Administração de Benguela, Angola. Notícias MU.
Oficial do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros de Angola resgatando uma criança durante as cheias no Rio Cavaco em Benguela. Mais de 1.600 pessoas foram resgatadas com o apoio da Força Aérea, Marinha de Guerra e dos Bombeiros. A criança resgatada recebeu assistência médica no Hospital Geral de Benguela. Foto cortesia da Administração de Benguela, Angola. Notícias MU.

Pontos Principais:

  • Chuvas intensas provocaram destruição em larga escala na província de Benguela, em Angola, durante o mês de abril desse ano.
  • Igrejas e famílias metodistas abriram as portas para acolher famílias desalojadas após o desastre que afetou mais de 50 mil cidadãos. 
  • O apelo coordenado pela Igreja Metodista local, conseguiu arrecadar mais de 2 milhões de kwanzas, o equivalente a mais de 2 mil dólares, em poucos dias de campanha.

A província de Benguela foi severamente afectada pelas intensas chuvas registadas no dia 12 de abril de 2026, que provocaram inundações de grande magnitude em diversos municípios, causando perdas humanas, desaparecimento de pessoas, desalojamento de famílias e significativos danos materiais e infraestruturais.

As cheias resultaram, principalmente, no transbordo do rio Cavaco, agravado pelo rompimento do dique de protecção da margem esquerda, localizado no bairro das Bimbas. O incidente originou o alagamento extensivo de várias zonas residenciais e áreas circunvizinhas.

Entre as localidades mais afectadas encontram-se os bairros Calomanga, Massangarala, Cotel, Santa Teresa e outras comunidades situadas nas proximidades da bacia do rio Cavaco, onde numerosas habitações ficaram parcial ou totalmente submersas, levando as pessoas a recorrerem aos templos cristãos e posteriormente aos campos de acolhimento.

Segundo informações preliminares divulgadas pelo Serviço de Protecção Civil e Bombeiros, o desastre natural resultou em 46 vítimas mortais, 11 pessoas desaparecidas, centenas de feridos e 51 mil cidadãos afectados, tornando necessária a mobilização de equipas de resgate e emergência para evacuação de moradores em situação de risco.

Os danos materiais incluem igualmente a destruição de residências, comprometimento de infraestruturas rodoviárias e pontes, e interrupções temporárias nos serviços de transporte e mobilidade em determinadas áreas da província. 

A Igreja Metodista Unida Rev. Eduardo Afonso foi inundada pelas enxurradas e consequentemente saqueada. Levaram tudo, inclusive o púlpito. Num grito de socorro do Pastor local, Rev. Martinho Sangunga, ecoou um apelo angustiante no primeiro dia do desastre: "Neste momento, muitos membros estão no tecto de suas casas porque as águas subiram até ao pescoço. Faço este apelo chorando pois não sou ninguém sem aqueles que Deus me deu para cuidar. É noite, não sei se vai aumentar o nível das águas. Ladrões roubando tudo que restou. Pedimos as vossas orações."

Rev. Neto Mendes, superintendente do distrito de Benguela, em trabalho de campo no cargo pastoral, durante as chuvas na região. Foto cortesia da comissão de comunicação do distrito de Benguela, Angola. Notícias MU.
Rev. Neto Mendes, superintendente do distrito de Benguela, em trabalho de campo no cargo pastoral, durante as chuvas na região. Foto cortesia da comissão de comunicação do distrito de Benguela, Angola. Notícias MU.
Operação de resgate após o transbordo do Rio Cavaco em Benguela, Angola. Foto cortesia da Administração de Benguela, Angola. Notícias MU.
Operação de resgate após o transbordo do Rio Cavaco em Benguela, Angola. Foto cortesia da Administração de Benguela, Angola. Notícias MU.

Desde o primeiro dia da calamidade, o distrito eclesiástico de Benguela, pertencente a Conferência Anual do Oeste de Angola, movimentou-se sob a liderança do Superintendente, Rev. Neto Mendes, respondendo com espírito cristão de solidariedade e serviço, abrindo as portas dos seus templos para acolher famílias deslocadas e afectadas pelas cheias, testemunhando o amor de Cristo em meio à dor e ao sofrimento das comunidades afectadas, como foi o caso do director distrital da OJA, Orlando  Joaquim Mateus, que contou que tudo começou com o aumento repentino do nível das águas e os primeiros gritos de socorro vindos das zonas mais afectadas. “Ao ouvir os gritos de socorro, não pensei duas vezes. Corri na direcção contrária das águas para ir ao encontro da minha mãe”, relatou.

Orlando explicou que o percurso até à sua família foi extremamente difícil, devido à força intensa da corrente e ao elevado nível das águas que tomavam as ruas e caminhos da zona afectada. Segundo o seu relato, o avanço só foi possível graças ao auxílio de jovens da comunidade, que o ajudaram a ultrapassar os pontos mais perigosos e a manter-se em segurança durante a travessia em condições extremamente adversas.

Ao chegar ao local, Orlando deparou-se com uma realidade ainda mais crítica do que imaginava. “Quando lá cheguei, encontrei não apenas os meus familiares, mas também várias outras pessoas em situação de risco”, afirmou. Perante o cenário de desespero e necessidade urgente de socorro, decidiu agir imediatamente, encaminhando todos os presentes para a sua residência, que passou a funcionar como abrigo para as vítimas afectadas pelas cheias, até o momento em que as vítimas foram encaminhadas para os campos de acolhimento.

Em meio a esta difícil situação, a Igreja dá graças a Deus pela preservação de vidas. Ernesto Guerra, um metodista unido, foi arrastado pelas águas durante as inundações e sofreu fracturas graves na perna, tendo-a quebrado em três partes. Pela graça de Deus, foi resgatado com vida e encontra-se actualmente a receber assistência médica e acompanhamento pastoral. "Dou graças a Deus pela pedra que encontrei no meio do rio que me amparou por mais de uma hora, até que chegaram os dois homens que me socorreram", testemunhou o mais velho Ernesto Guerra.

De igual modo, uma criança metodista que havia desaparecido durante a tragédia, foi resgatada com vida e já se encontra em segurança junto da sua família, facto que causou alívio, gratidão e louvor a Deus por Sua misericórdia.

No âmbito da campanha de solidariedade lançada por Sua Revma. Bispo Gaspar João Domingos, em apoio às vítimas das cheias na Província de Benguela, o conselho geral de programas junto do departamento de estudos e projectos e acção social da Igreja, tem mobilizado a arrecadação de diversos bens alimentares, de higiene e vestuário, destinados ao reforço da assistência humanitária às famílias afectadas.

Entre os bens já reunidos destacam-se quantidades significativas de alimentos básicos, incluindo arroz, massa alimentar, fuba de milho, açúcar, sal e óleo alimentar, constituindo um reforço essencial para a resposta alimentar de emergência. Alguns cargos pastorais de Luanda mobilizaram-se em apoiar o cargo pastoral Rev. Eduardo Afonso com alguns bens como cadeiras, ventoinhas e outros, substituindo aqueles que foram saqueados pelos ladrões.

Rev. Oséias António acompanhado de oficiais do distrito de Benguela, visitam o sobrevivente Ernesto Guerra em sua residência. Foto cortesia da comissão de comunicação do distrito de Benguela, Angola. Notícias MU.
Rev. Oséias António acompanhado de oficiais do distrito de Benguela, visitam o sobrevivente Ernesto Guerra em sua residência. Foto cortesia da comissão de comunicação do distrito de Benguela, Angola. Notícias MU.

Foram igualmente arrecadados diversos materiais de higiene e limpeza, bem como cerca de 70 atados de fardos de roupa usada, destinados a apoiar famílias desalojadas e em situação de vulnerabilidade. 

No plano financeiro, regista-se ainda a contribuição de um montante de mais 2 milhões de kwanzas (aproximadamente 2 mil dólares transferidos para a conta do distrito, destinado ao fortalecimento das acções de resposta solidária e apoio às comunidades afectadas.

O superintendente de Benguela, Rev. Neto Mendes, louvou a Deus pela Sua presença durante os dias difíceis que viveram e agradeceu a Igreja pelo apoio prestado até aqui. “Vivemos dias extremamente difíceis, neste momento as famílias estão se recompondo, mas isto é um processo que envolve projectos a curto, médio e longo prazo, por conta dos danos causados pelas chuvas", afirmou o superintendente.

Este acto de solidariedade reflecte o compromisso contínuo da Igreja Metodista Unida com o serviço ao próximo, a compaixão cristã e a promoção da esperança em meio às adversidades enfrentadas pelas comunidades afectadas.

A Igreja, permanece firme no compromisso de servir, consolar e caminhar com os que sofrem, reafirmando a missão de ser instrumento da graça, da esperança e da restauração de Deus em tempos de adversidade.

*Neusa Ndalamba é uma correspondente e tradutora da Igreja Metodista Unida (IMU) baseada em Angola.

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