Pontos-chaves:
- Iniciar novas igrejas nas aldeias de Ninga, Namaua e Moeda, em Cabo Delgado, exigiu a adopção de estratégias para construir confiança e relações interpessoais, num contexto de ministério respeitoso, em meio a desafios de pobreza e insegurança devido a actividades terroristas.
- Os convertidos são assistidos por pastores metodistas de Pemba, Muadja e Metuge e recebem ensinamentos sobre o catecismo, a Bíblia, o valor do jejum, e cresce o interesse em se tornarem pregadores, exortadores, de acordo com o livro da disciplina.
- Os cultos com canticos e danças locais contextualizados aos hábitos culturais e a língua local (Kiswahili) e o recitamento do Credo dos Apóstolos, do Pai Nosso, de orações em actividade agrícolas, orações semanais e jejum cativam os membros (sobretudo os convertidos).
No norte de Moçambique, em regiões marcadas pela predominância do Islão, desafios linguísticos e instabilidade provocada por conflitos armados, um movimento de evangelização liderado pelo leigo metodista Arlindo Sambo tem impulsionado o surgimento de novas comunidades cristãs.
A partir de estratégias que combinam ação social, contextualização cultural e discipulado, o trabalho tem atraído moradores de aldeias como Ninga, Namaua e Moeda, onde práticas locais foram incorporadas ao culto cristão sem comprometer os princípios teológicos do metodismo.
A iniciativa, que inclui apoio agrícola, ensino do catecismo e formação de novas lideranças, contribui para o crescimento da Igreja Metodista Unida na região e para a transformação espiritual e comunitária de antigos membros de comunidades muçulmanas.
Arlindo Sambo, leigo devoto da Igreja Metodista Unida em Moçambique, navega a histórica jornada na implantação de novas igrejas defendendo que não há segredo para iniciar uma nova igreja.
“A pessoa deve viver como cristã, ter fé, estar comprometida com o crescimento da Igreja, desfrutar de ajudar os outros, ser social com todas as camadas sociais das comunidades e, acima de tudo, compreender a cultura em questão,” afirma.
Sambo trouxe um projecto pensado a partir da sua experiência pessoal na criação de novas igrejas. Convidou as comunidades a uma nova compreensão centrada em Cristo, e permitiu que a comunidade muçulmana mantivesse as suas formas culturais (como posturas de oração ou jejum), procurando um elemento de inovação no canto dos hinos à maneira muçulmana, incluindo a Oração do Senhor. Sambo havia antes fundado com sucesso novas igrejas em Macia (Igreja John Wesley, no Sul de Moçambique), depois Ninga, Namaua e Moeda, no norte de Moçambique.
Ele explica que em todas as novas igrejas implantadas no Norte, a dedicação à oração e à pregação do evangelho cativou as comunidades muçulmanas para se unirem. As orações são feitas com acção. Um bom exemplo disso é a forma como o projeto aconteceu em Ninga. Sambo ajudou a população a abrir campos agrícolas, e cada actividade agrícola era acompanhado de orações. Como resultado, os campos foram produtivos, o que cativou os membros das aldeias. Desta forma, os metodistas são procurados em muitas aldeias para ajudar na preparação de machambas e outras actividades acompanhadas de orações.
Sambo narra que os cultos sempre começaram na casa de um crente que fielmente ofereceu a sua residência como templo de Deus, e à medida que o trabalho de evangelização avança, mais almas são conquistadas. Alguns membros ofereceram os seus terrenos, e em um deles, foi construída uma pequena capela com material local para os cultos.
O primeiro desafio encontrado foi a língua – KiSwahili. Sambo precisava da ajuda de um intérprete para transmitir a mensagem de Deus e uma comunicação eficaz. Os conflitos armados, desastres naturais e a instabilidade política em Moçambique, representam um grande desafio até hoje. Ainda e como relato de que terroristas lutam para eliminar os cristãos. Em entrevista à Organização das Nações Unidas em setembro de 2025, o presidente do país, Daniel Chapo, disse que o apoio de forças africanas regionais com alguns países têm ajudado a controlar a situação, mas “ataques esporádicos” ainda ocorrem. Leia a entrevista completa no site da ONU News.
O processo de acompanhamento dos convertidos é contínuo, especialmente devido a tempos difíceis (ataques ou ameaças de ataque). Estar perto dos novos e antigos convertidos dá-lhes conforto, especialmente quando falam da salvação de Deus.
Elsa João e Georgina Nguluve são membros fundadoras e naturais de Ninga e Namaua. Admiram o poder que Deus transmitiu ao irmão Sambo, natural do sul do país e de uma cultura extremamente diferente. Revelam que Deus o usou na construção da fé cristã em Ninga e Namaua. Actualmente ajudam-se mutuamente, praticam o amor, visitam os doentes no centro de saúde local e nas suas casas, sem olhar para as côres religiosas. Elas contribuem para os custos hospitalares, oram pela restauração da saúde e testemunham a cura. Ensinam à comunidade a doutrina metodista às quartas e sextas-feiras e praticando o jejum.
“No início éramos três famílias e agora somos 70 pessoas na Igreja de Ninga. Na época da colheita, passamos mais tempo no campo. Ajudamos os soldados acampados na zona em oração e damos-lhes de comer e de beber, pois temos um pequeno sistema de água. Criamos novas igrejas locais em Namaua e Moeda, compostas por comunidades que realizavam cultos em igrejas pentecostais e refugiadas. No futuro precisaremos de um pastor para nos orientar, pois o irmão Sambo terá de regressar ao sul do país. A nossa Igreja está a crescer muito: já tivemos 2 casamentos e baptizámos 15 membros, eventos orientados pela Superintendente Dercia Marrengula,” partilhou a Irmã Elsa.
Georgina era muçulmana, viúva e com uma vida solitária. Revelou que, com a chegada do metodismo a Namaua, Deus ajudou muito e trouxe milagres. Em conversas e meditações, ela falou sobre a salvação e a transformação e, como resultado, os seus vizinhos deixaram de beber e de ser violentos com as suas esposas e filhos. Com o encerramento da Igreja Metodista em Mocímboa da Praia devido ao terrorismo, os refugiados (cerca de 15 famílias) passaram dois anos sem assistir aos serviços. Estes juntaram-se à Igreja de Namaua. Mais membros estão a entrar e a ser ganhos e já há um espaço para construir a capela, graças ao apoio do Irmão Sambo.
Georgina partilha hoje uma mensagem de esperança. “As nossas actividades são visíveis: orações, jejum, e visitas a casas, mercados, doentes. O terrorismo não nos desencoraja e, às quartas, quintas e sextas-feiras, temos tido orações. Continuamos a adorar debaixo das árvores, mas acreditamos que um dia teremos uma casa melhor de adoração para o crescimento desta comunidade. Por falta de Bíblias, não tem sido fácil realizar o estudo bíblico. Existem cerca de 16 crianças que recebem orientação e ensino cristão. Agradece-se pelo apoio da Igreja Metodista Unida, que está a tornar-se muito conhecida,” explicou.
A Superintendente de Cabo Delgado, Dércia Marregula, reagiu ao crescimento da Igreja. “Deus escolheu irmãos que aceitaram Cristo e cumpriram a missão de Mateus 28:18-20: o mesmo para fazer discípulos por todo o mundo, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a guardar os Seus ensinamentos e que Ele estará connosco até ao fim dos tempos.”
Ela prosseguiu destando também o trabalho de Sambo. "Com a ajuda do Irmão Arlindo Sambo, foi possível implementar a IMU em Ninga, Namaua e Sede de Moeda, locais onde o Cristianismo não tinha aceitação nem expressão, devido à maior presença do Islão. Mas como a palavra de Deus é uma espada de dois gumes, foi assim lançada e encontrou terreno fértil. Não foi uma tarefa fácil". Pessoas como as irmãs Elsa e Georgina, que ouviram falar de Jesus e que estavam sedentas de partilhar a palavra, abriram as portas de suas casas e assim convidando mais nativos. Ninga é um corredor que liga Moçambique à Tanzânia e já sofreu várias ameaças de terroristas, mas a igreja continua forte.
Os cultos são realizados segundo as tradições locais, incluindo canticos e danças (com auxílio de sons ampliados num dispositivo) e o povo a celebrar. O irmão Sambo contextualizou os hábitos culturais e a língua local (Kiswahili). Oferecemos Bíblias e traduzimos o Credo dos Apóstolos, o Pai Nosso e os hinários para a língua local. Por razões de segurança, os membros foram obrigados a adorar em público, para reduzir a desconfiança.
Pregar aos muçulmanos não é tarefa fácil, mas os membros são sabiamente discipulados através de acções (doações, participação em cerimónias fúnebres, casamentos e partilha de pão em comunhão), incluindo a doação de água potável – fruto do empenho do programa de parceria da Iniciativa Missouri-Moçambique, aumentando nossa acção espiritual, da saúde das comunidades, bem como o equilíbrio físico.
Marrengula diz que os riscos estão presentes (perseguições, entrada de outras seitas que podem diminuir a fé), mas tudo é normal para quem fala de Cristo. São usados meios pacíficos para pregar a palavra de Deus. Os convertidos são ensinados em pequenos grupos sobre o catecismo, a Bíblia, e pensa-se na formação dos membros a pregadores, exortadores, de acordo com o Livro da Disciplina. Os membros destas comunidades são assistidos por pastores metodistas de Pemba, Muadja e Metuge.
Devido a este crescimento, temos contactos de outras aldeias e a 'trombeta de Ninga' impulsionou a implantação de outras igrejas em Namaua e Mueda. Estas áreas precisarão de material adicional de educação cristã, e de acções para prolongar o componente social relacionado à água potável, escolas, hospitais, capelas e residências pastorais.
Nhantumbo é correspondente da UMCom e Notícias MU – África Lusofona, sediado em Maputo.
Contacto com a mídia: Julie Dwyer at [email protected].
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